Um modelo de compostagem para uma indústria sustentável

Um modelo de compostagem para uma indústria sustentável: Gerecimento ecossistêmico de resíduos sólidos orgânicos industriais classe II.

Nos ecossistemas naturais, os produtores e os consumidores, geram grandes quantidades de resíduos. Ao mesmo tempo, dentro do mesmo ecossistema desenvolvem-se processos recicladores. A matéria orgânica é integrada novamente ao ecossistema como nutrientes disponíveis para o desenvolvimento dos produtores, re-circulando os elementos e nutrientes. Este enquadre ecologico permite desenvolver unidades de compostagem para o setor industrial. A compostagem apresentou-se como um modelo reciclador, onde os resíduos transformados em recursos são devolvidos ao meio natural e impactam positivamente nos ecossistemas sócio-naturais, garantindo a sustentabilidade.

Introdução

Historicamente os impactos causados no meio natural aumentam em função do contínuo crescimento das atividades humanas. O modelo sócio-econômico atual depende direta ou indiretamente dos recursos naturais e as atividades desenvolvidas dentro deste modelo são pouco sustentáveis, provocando danos irreparáveis no curto prazo e afetando a capacidade de manutenção do atual sistema econômico. Este modelo econômico foi assinalado como a principal causa do aumento da pressão que os seres humanos exercem sobre os recursos naturais.

Desde a segunda metade do século 20, quando começou uma nova consciência e sensibilidade frente aos grandes problemas ambientais, o ambiente passou a ser considerado em situação de risco frente a seu papel não sustentável em sua constante inter-relação homem-natureza.

O rápido desenvolvimento econômico é acompanhado de uma grande produção de resíduos sólidos dentro do setor industrial. O destino destes resíduos provoca grande preocupação, porque o inadequado descarte é causa do aumento de contaminação dos recursos naturais. No Estado de São Paulo geram-se anualmente um total 26.619.678 toneladas de resíduos sólidos industrial, dos quais 25.030.167 toneladas é Classe II.

As alternativas de destinação utilizadas atualmente pelo setor industrial em Estado de São Paulo para este tipo de resíduo classe II são:

  • Agregado em pátios próprios da indústria (3%),
  • Aterros controlados (é a forma mais popular representando um 92%) e
  • Tratamento para recuperação de substâncias para recirculação dentro dos processos produtivos, que geraram os resíduos (5%) ou para poder ser aproveitados por outros processos produtivos.

A valorização dos resíduos orgânicos sólidos industriais classe II, transformado-os novamente em matéria prima para que possam ser incorporados dentro dos processos que alimentam a entrada do sistema produtivo é uma alternativa econômica e ambientalmente viável que pode ser aplicada com sucesso na industria como mecanismos de produção mais limpa e de desenvolvimento sustentável.

Processo de Compostagem

Uma alternativa tecnologicamente viável e crescente para o problema destes resíduos é o processo de compostagem, processo biológico aeróbico pelo qual se estabilizam e transformam a resíduos orgânicos industriais em fertilizantes orgânicos, que podem ser utilizados para melhorar a fertilidade do solo, em especial daqueles submetidos a atividades econômicas (ecossistemas produtivos).

Algumas indústrias de celulosa e papel dentro de São Paulo começaram a tratar seus resíduos, classe II de tipo orgânico, mediante o processo de compostagem aeróbico, para obter um produto final diferente do resíduo inicial que possa ser utilizado como fertilizante orgânico e condicionador de solo dentro de seus sistemas agro-florestais.

Entre 2007 e 2010 mais de meio milhão de toneladas de resíduos orgânicos industriais foram destinados para usinas de compostagem, onde, imitando os processos naturais em condições controladas, foram transformados em adubo orgânico. Esse adubo foi destinado para:

  • Utilização em ecossistemas produtivos florestais.
  • Recuperação de áreas degradadas e erosionadas.
  • Adubação e áreas destinadas para reflorestamento com mata nativa.

Como processo reciclador da matéria orgânica, a compostagem possibilita:

  • a redução do volume dos resíduos gerados,
  • economia dos recursos naturais,
  • redução da dependência de agroquímicos,
  • qualidade ambiental das florestas
  • e desenvolvimento de tecnologias e práticas de desenvolvimento sustentaveis e produção mais limpa vinculadas ao processo produtivo de bens e serviços.

Em uma leira de material em compostagem se dão processos de biodegradação em determinadas períodos e sob certas condições. O importante destes processos não é biodegradar, e sim poder controlar esta biodegradação, que permitam a obtenção de um produto final o mais apropriado conforme os requisitos legais, da melhor qualidade conforme necessidades do solo ou plantas e no menor tempo e espaço possível. Desta forma, o sucesso do processo de compostagem dependerá de controlar as condições químicas e físicas para obter as condições necessárias para o ótimo desenvolvimento dos processos biológicos.

Na compostagem, se bem se dão processos de biodegradação em determinadas períodos e sob certas condições, o desejável é que prevaleçam os metabolismos respiratórios de tipo aeróbio (processo caracterizado com temperaturas acima de 51°C), tratando de minimizar os processos fermentativos e anaeróbicos, já que os produtos finais deste tipo de metabolismo não controlado conduzem à perda significativas de nutrientes, geração de odores desagradáveis e emissões de gases de efeito estufa ou contaminantes.

Uma relação adequada entre os nutrientes Carbono e Nitrogênio (C/N) favorecerá um bom crescimento e reprodução dos microorganismos nas leiras. Uma relação C/N ótima de entrada, ou seja, de material “cru ou fresco” a compostar é de 30 unidades de Carbono por uma unidade de Nitrogênio, ou seja, C(30)/N (1) = 30. Em termos gerais, uma relação R/N inicial de 25 a 35 se considera como adequada para iniciar um processo de compostagem.

Pelo teor de umidade inicial de cada material e da mistura resultante a técnica de revolvimento aplicada deverá seguir critérios que minimizem a perda de umidade e nutrientes, garantam a higienização de todo o material dentro da leira, minimizem a necessidade de irrigação das leiras e mantenha as condições ideais para o processo metabólico dos microrganismos.

As temperaturas termófilas em uma leira garantem que o processo de compostagem foi aeróbico atendendo os requeridos de higienização como o recomendado por Casco e Herrero (Casco e Herrero, 2008).

Os benefícios obtidos 

  • Elaboração de um modelo de ecologicamente sustentável e economicamente viável de tratamento de resíduos orgânicos industriais classe II, em substituição de práticas como aterros.
  • Introdução dos princípios ecológicos dos processos de reciclagem dos ecossistemas naturais dentro dos processos produtivos agro industriais como parte do gerenciamento de resíduos ambientalmente corretos.
  • Geração de um modelo referencial de Valorização de Resíduos e de Produção mais Limpa e reaproveitando os elementos dos resíduos como recursos.
  • Atendimento aos requisitos da Lei 12.305/2010, que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS).
  • A elaboração de um produto final (composto) que seja de qualidade para a substituição parcial ou total de agroquímicos nos sistemas produtivos agro-florestais.
  • Ser utilizado o processo como marco referencial por órgãos estatais e acadêmicos para a elaboração de novos projetos de gerenciamento de resíduos imitando os processos ecológicos dos ecossistemas naturais, desenvolvendo uma indústria ecossistêmica integrada aos processos naturais garantindo a sustentabilidade e redução de custos.

Conclusão

  • O correto tratamento dos resíduos, evita a contaminação dos recursos naturais disponíveis, e as conseqüências desta contaminação nos sistemas sociais.
  • O processo de compostagem é um sistema de tratamento ecologicamente correto e economicamente viável desenvolvido com sucesso em vários países do mundo e no Brasil.
  • A compostagem como tratamento dos resíduos orgânicos sólidos industriais classe II, não é uma prática muito difundida nas indústrias atualmente, porem amplamente sucedida nos projetos desenvolvidos. A determinação de um modelo a escala industrial está constituindo em uma nova alternativa de valorização e tratamento de resíduos, integrando os processos industriais aos ecológicos dos ecossistemas de onde tomam seus recursos direta ou indiretamente.
  • O potencial presente no processo de compostagem para tratamento dos resíduos orgânicos indústrias para obter um fertilizante orgânico é altamente positivo.
  • A relação C/N obtido garante um aporte de nitrogênio no solo e um aporte positivos de nutrientes e micro nutrientes ao solo em proporções balanceadas, sem risco para o solo e para o meio ambiente.

Marcos Alejandro Badra
(Este artigo é um resumo do apresentando para meu programa de Doutorado em Ciências Naturais, para maiores informações entre em contato comigo ao 019-8199 0362 ou no meu email)

Compostagem em apartamentos?

Práticas sustentáveis não são privativas unicamente de industrias ou grandes organizações. Elas podem ser realizadas por cidadãos comuns em todos os aspectos de sua vida. Na matéria “Reciclagem: moda ou inteligencia”,  se explica como enviar resíduos orgânicos para aterros é uma forma desnecessária, insustentável e cara de lidar com o lixo. Atualmente existem alternativas para valorização dos resíduos orgânicos residenciais para casas, apartamentos, condomínios entre outros.

Para tratar o resíduo orgânico gerado na minha cozinha desenvolvi uma compostadeira simples (ver foto), instalada na sacada do meu apartamento em um terceiro andas, onde transformado em adubo aproveitamos nos vasos que temos ali mesmo ou doamos para amigos. Todo este processo não gera odores nem permite a proliferação de insetos, como baratas ou moscas, o que faz do processo totalmente limpo e agradável para toda a família. O sistema é simples e até meu filho de 7 anos contribui com a manutenção do mesmo. A compostadeira tem uma câmera para coletar os líquidos do processo, que também é usado como fertilizantes para as plantas. Desta forma evitamos enviar resíduos orgânicos para o aterro, aumentando a capacidade de coleta dos caminhões, a vida útil dos aterros e contribuímos com a diminuição de gases de efeito estufa pela geração de metano (causado pela putrefacção dos resíduos no aterros). Outro ganho importante de ter reciclado na minha sacada os resíduos orgânicos é a melhor qualidade dos recicláveis que posteriormente os catadores coletam no condomínio.

Desta forma tem muitas alternativas e iniciativas de compostagem para resíduos orgânicos residenciais, assim como valorização de outros pelo mundo estão mostrando novas formas de compostar que são mais rápidas e mais eficientes.

Portanto é hora de mergulhar de cabeça nessa ideia e poder participar com pequenas ações sustentáveis e assim apoiar essa forma mais eficaz de descartar os resíduos que produzimos diariamente em nossas atividades, tornando nossas vidas mais harmônicas e responsáveis com a natureza.

Marcos Alejandro Badra

Se quiser maiores informações sobre esta compostadeira para residencias ou para programas de educação ambiental em escolas ou outras organizações, entre em contato no meu email ou pelo meu celular (019-8199 0362).

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